Human Rights Watch diz que o uso irrestrito da força letal e operações como a Operação Contenção, que deixou 122 mortos, evidenciam fragilidade institucional e risco para a segurança pública
A escalada da violência policial e a reprodução de operações de alto impacto colocam a questão da segurança pública no centro do debate nacional, com efeitos sociais e políticos profundos.
Especialistas apontam que práticas letais repetidas e a falta de investigação eficaz alimentam um ciclo de violência, e que essas ações trazem retorno simbólico, mas não resolvem o crime organizado.
As informações e análises que seguem são baseadas em relatório da Human Rights Watch e em entrevista concedida à Agência Brasil, conforme informação divulgada pela Human Rights Watch e por entrevista à Agência Brasil.
Dados e dimensões da crise
O relatório registra números que mostram a magnitude do problema, Forças policiais mataram 5.920 pessoas no Brasil de janeiro a novembro de 2025, e o episódio de maior letalidade foi a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro, quando 122 pessoas morreram, incluindo cinco policiais. O relatório cita ainda que 185 policiais foram mortos no ano passado, segundo dados do Ministério da Justiça, e outros 131 cometeram suicídio. Esses dados revelam simultaneamente o uso intensivo da força e o custo humano para as corporações.
Autonomia policial, impunidade e responsabilidade política
A pesquisadora Carolina Grillo, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, afirma com clareza, “Em nenhum estado se pode dizer que o governador possui efetivo controle das forças de segurança.” Ela explica que as instituições policiais têm grupos muito poderosos no seu interior, uma relativa autonomia, e que os agentes nas ruas dispõem de discricionariedade, o que cria espaço para ações letais sem consequências imediatas para os responsáveis.
Grillo acrescenta que, quando autoridades políticas manifestam apoio precoce a ações policiais e interpretam mortes como legítimas antes de investigação, isso funciona como estímulo, porque “A promessa de impunidade estimula a atuação policial violenta”.
Reprodução de modelos e efeitos eleitorais
Segundo a pesquisadora, há um empobrecimento do debate em segurança pública, com repetição de modelos já testados que não produzem resultados, e com a adoção, por outros estados, de práticas inspiradas no modus operandi do Rio de Janeiro. “As operações policiais e as altas taxas de letalidade policial são empregadas com o principal método de controle do crime no Rio de Janeiro há décadas”, diz Grillo, observando que essas operações, embora ineficazes, geram visibilidade e aumentos de popularidade para mandatários que as autorizam.
Investigação, inteligência e alternativas necessárias
Grillo destaca que ações de inteligência, como investigações do Gaeco e da Polícia Federal, tendem a ter efeito mais consistente no desmantelamento do crime organizado, por serem silenciosas e técnicas, enquanto operações espetaculares têm grande impacto social e simbólico, sem garantir redução sustentável da criminalidade.
A pesquisadora aponta ainda problemas nas apurações internas, pois, em muitos casos, a versão apresentada por policiais é a principal prova usada para arquivar investigações, havendo déficit de perícia e produção de evidências. Para mudar o curso da segurança pública, ela defende maior investimento em investigações e inteligência, e debate público mais qualificado, em vez da simples intensificação de operações letais.







