O Brasil registrou, em 2025, um aumento nos relatos de pessoas desaparecidas entre crianças e adolescentes, um dado que acende alerta entre autoridades e famílias.
Das 84.760 ocorrências gerais, 23.919, ou 28% do total, envolveram vítimas com menos de 18 anos de idade, segundo os números oficiais.
Em média, as delegacias do país registraram diariamente 66 boletins de ocorrência sobre o sumiço de crianças e adolescentes, conforme informação divulgada pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
Números e tendência recente
Os 23.919 casos de menores em 2025 fazem parte de um total de 84.760 ocorrências, e representam um crescimento em relação ao ano anterior em pontos que preocupam. Os registros de desaparecimento de jovens aumentaram 8% em comparação aos 22.092 desaparecimentos notificados às Polícias Civis em 2024.
O crescimento de 8% entre menores é o dobro do aumento dos casos gerais, que saltaram de 81.406 para 84.760, um acréscimo de 4% no mesmo período, segundo dados do Sinesp.
Em comparação a 2019, quando a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas entrou em vigor, o total de 2025 é quase 14% inferior aos 27.730 ocorridos naquele ano, mas os dados mostram que a curva de denúncias voltou a subir desde 2023, quando foram registradas 20.445 denúncias.
Perfil das vítimas e características dos desaparecimentos
Enquanto os homens representam 64% do total de pessoas desaparecidas, entre o público infantojuvenil, a maioria, 62% das ocorrências, envolve meninas, segundo o Sinesp. Esses números apontam diferenças importantes no perfil por faixa etária e gênero.
Especialistas ouvidos destacam que é importante distinguir as circunstâncias em que o sumiço ocorre, em pelo menos três categorias distintas, voluntário, involuntário, quando não há emprego de violência, e o forçado.
Como afirmou Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil, da Universidade de Brasília, “Eu ainda trabalho com outra categoria, não muito usual, que é a do que chamamos de desaparecimento estratégico, para se referir à pessoa que desaparece para sobreviver. Caso de uma mulher que foge de um marido abusivo e de uma criança vítima de maus-tratos”, mostrando a complexidade das causas.
Quando e como ocorrem, e relatos de famílias
O Mapa dos Desaparecidos no Brasil, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que a maior parte dos desaparecimentos acontecem entre sexta-feira e domingo, informação que ajuda a traçar medidas preventivas e de busca.
Um caso relatado pela reportagem ilustra a angústia das famílias, e também o desfecho positivo que pode ocorrer com mobilização pública. O jovem I.S.B, 10 anos, deixou a casa do pai em Curitiba, no dia 27 de dezembro do ano passado, e foi localizado três dias depois por um idoso que, ao ver o alerta nas redes sociais, o levou para casa e acionou a polícia.
O pai, o pintor Leandro Barboza, contou à Agência Brasil que o menino disse ter saído para brincar com outras crianças da vizinhança, ter se afastado e, ao anoitecer, ter ficado com receio de apanhar. “Isso foi o que ele me contou depois, mas a verdade é que a gente nunca sabe o que de fato se passou na cabeça da pessoa, ainda mais de uma criança”, disse Leandro, que relatou ter passado noites em busca do filho.
O pai descreveu a angústia da família, “É uma agonia que só quem passa dá conta de dizer. Eu pensava o pior: que alguém tinha raptado meu filho; que tinham matado ele; que eu nunca mais ia vê-lo. Na primeira noite, eu tinha chegado do trabalho cansado, no fim da tarde, e fiquei quase a madrugada inteira o procurando. Só parei quando o corpo já não aguentava mais e eu não sabia mais onde procurar”, trecho do depoimento publicado na Agência Brasil.
Resposta institucional e necessidades das famílias
Desde 2019, a legislação brasileira reconhece como desaparecido qualquer “ser humano cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa de seu desaparecimento, até que sua recuperação e identificação tenham sido confirmadas por vias físicas ou científicas”, definição que ampliou o alcance das buscas e o dever de atuação das autoridades.
Apesar disso, pais e mães, como Leandro, relatam lacunas no atendimento emocional e no suporte durante a busca, e apontam a necessidade de atendimento psicológico e orientação especializada para lidar com o trauma e para prevenir novos episódios.
Leandro também contou que recebeu críticas nas redes sociais e que, em um momento, um policial disse que ele e a esposa poderiam ser responsabilizados pelo sumiço, mesmo enquanto registrava a ocorrência e buscava ajuda, relato publicado pela Agência Brasil que evidencia a fragilidade do suporte à família.
Dados oficiais, estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e depoimentos mostram que, para reduzir os casos e mitigar os danos, são necessárias estratégias integradas de prevenção, atendimento e busca, além de campanhas educativas, acolhimento psicológico e maior articulação entre polícia, conselhos tutelares e redes sociais.
O aumento das ocorrências entre menores, e o predomínio de meninas nesse recorte, exigem políticas públicas direcionadas, e atenção especial às circunstâncias de violência doméstica, vulnerabilidade social e acontecimentos de final de semana, pontos indicados pelas estatísticas e por especialistas.







