A Universidade Federal do Pará oficializou que concederá um diploma simbólico a Cezar Morais Leite, estudante de Matemática morto em 1980 nas dependências do campus de Belém, quando tinha 19 anos. A decisão foi aprovada pelo Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão, e uma cerimônia será marcada.
Cezar estava no terceiro semestre do Bacharelado em Matemática quando sua trajetória foi interrompida no dia 10 de março de 1980, durante uma aula da disciplina Estudos dos Problemas Brasileiros, quando um agente infiltrado disparou contra ele em um contexto de perseguição política. A iniciativa da universidade visa inscrever seu nome na memória institucional.
O ato tem caráter exclusivamente honorífico e simbólico, sem conferir grau acadêmico tradicional, e se insere nas ações voltadas à justiça de transição, para enfrentar legados de regimes autoritários e preservar a memória das vítimas. Conforme informação divulgada pela UFPA.
Decisão e fundamentação institucional
O processo que culminou na concessão do diploma simbólico foi relatado pelo professor Edmar Tavares, que ressaltou o caráter de reparação do ato. Segundo o parecer, a medida afirma, institucionalmente, que a UFPA reconhece a violência cometida contra um de seus estudantes e reafirma seu compromisso com a memória, a democracia e os direitos humanos.
Sobre o significado do ato, o relator declarou, exatamente, “Este ato é, também, um sentimento de profunda responsabilidade e de reparação simbólica. Tendo vivido na UFPA nos anos finais da ditadura e participado do movimento estudantil, sei que aquele período deixou marcas de medo e silenciamento dentro da universidade”.
Contexto histórico e alinhamento com outras universidades
A decisão da UFPA segue ações semelhantes já adotadas por outras instituições, como USP, UFMG, Ufal e Unirio, que também promoveram medidas de preservação da memória e concederam diplomas simbólicos ou honrarias a estudantes mortos ou desaparecidos no período ditatorial. Essas iniciativas se baseiam em orientações da Comissão Nacional da Verdade, que estimula gestos simbólicos de reparação às vítimas do aparato estatal.
O parecer destaca que a concessão integra o campo da justiça de transição, compreendida como o conjunto de medidas adotadas por sociedades democráticas para enfrentar legados de autoritarismo e garantir que abusos não se repitam.
Cerimônia, família e papel da universidade
O reitor Gilmar Pereira informou que a cerimônia solene será realizada no campus, com a presença da família de Cezar, integrantes da comunidade acadêmica e lideranças da universidade. Ele enfatizou a responsabilidade da instituição na preservação da memória e na luta por justiça.
Nas palavras do reitor, “A universidade, por natureza, é um espaço de preservação da memória, da luta por justiça e de combate a todo o preconceito”. Ele acrescentou, exatamente, “A ditadura militar foi, na verdade, um momento de muita dor, causou muito sofrimento a muitas pessoas. O Cezar Leite é um exemplo disso. A família, sua mãe, seus irmãos, sofreram todos esses anos, desde os anos 80, e continuam sofrendo, porque quem perde um filho, perde um irmão, não deixa de sofrer nunca”.
Importância para memória e direitos humanos
Ao inscrever o nome de Cezar Morais Leite na memória oficial da universidade, a UFPA busca evitar que a violência seja naturalizada ou silenciada, tratando a trajetória do estudante como parte da história e não como mera estatística. A iniciativa reforça o compromisso da instituição com a verdade histórica e com ações que visam a reparação simbólica das vítimas do autoritarismo.
O ato também abre espaço para que a comunidade acadêmica dialogue sobre o passado e sobre medidas que fortaleçam a democracia, a proteção de direitos humanos e a preservação da memória coletiva, dentro e fora do campus.








