Pesquisa Data Favela indica que moradores de favelas priorizam segurança, moradia e saúde para 2026, com demandas ligadas a saneamento, educação e emprego
A população das favelas brasileiras é majoritariamente jovem, negra e trabalhadora, e projeta planos concretos para o futuro, apesar de desafios estruturais que afetam educação, saúde e segurança. O desejo por dignidade e bem-estar básico aparece com força nas respostas.
Ao olhar para 2026, prioridades como uma casa melhor, acesso a saúde de qualidade e a entrada dos filhos na universidade aparecem como metas imediatas, revelando que o futuro é pensado a partir da rotina e da necessidade de segurança material.
Os dados apresentados servem para chamar atenção da sociedade e do poder público para as negligências que impactam a vida nas favelas, conforme informação divulgada pelo Data Favela.
Perfil sociodemográfico e trabalho
A pesquisa ouviu 4.471 moradores maiores de 18 anos entre 11 e 16 de dezembro de 2025. A maior parte dos entrevistados é formada por adultos entre 30 e 49 anos (58%), jovens de 18 a 29 anos somam 25%, e pessoas com mais de 50 anos correspondem a 17%. Cerca de 60% são mulheres.
O estudo aponta ainda que oito em cada dez se identificam como negros, sendo 49% pardos e 33% pretos, enquanto brancos são 15%. Em escolaridade, 8% têm ensino fundamental completo, 35% ensino médio completo, 11% ensino superior completo, e 5% pós-graduação.
No aspecto econômico, cerca de 60% ganham até um salário mínimo mensalmente, 27% recebem de R$ 1.521 a R$ 3.040, e 15% reúnem faixas acima de R$ 3.040. Sobre ocupação, três em cada dez afirmaram ter trabalho com carteira assinada, 34% estão informais, 17% estão desempregados, e 8% estão fora da força de trabalho.
Demandas por infraestrutura e serviços
Quando questionados sobre as principais mudanças desejadas nos territórios para 2026, as respostas mais frequentes foram saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%). Esses números mostram prioridades básicas que permanecem pendentes em muitas comunidades.
O acesso a espaços de esporte, lazer e cultura também é deficitário, 35% dos entrevistados afirmaram ser ruim ou muito ruim, e 32% afirmaram ser regular, o que reforça a necessidade de políticas públicas focadas em infraestrutura social e comunitária.
Segurança pública, medo e confiança em instituições
Sobre proteção contra a violência, as respostas indicam desconfiança nas instituições, com Polícia Militar citada por 27%, Polícia Civil por 11% e facção da minha favela por 7%. A opção com mais votos, no entanto, foi “nenhuma delas” (36%).
A percepção sobre a presença policial é dividida: 24% optaram por não responder, 25% afirmam que a presença não altera a sensação de segurança, 13% sentem medo e insegurança com a presença policial, e 22% se sentem mais seguros com policiamento no território. Um dado simbólico é que o maior desejo é poder ir e vir com tranquilidade, com 47% apontando essa prioridade.
Esses indicadores mostram que a segurança nas favelas envolve tanto a redução da violência, quanto a construção de confiança nas instituições, além de políticas que permitam mobilidade e tranquilidade para a população.
Desafios de raça, gênero e políticas para mulheres
A pesquisa também evidencia desigualdades de raça e gênero. Cerca de 50% afirmam que a cor da pele impacta nas oportunidades de trabalho, enquanto 43% dizem que a cor da pele não impacta. Entre os desafios enfrentados por mulheres na favela, sete em cada dez apontam violência doméstica e feminicídio como principal problema, seguido por dificuldade com emprego e renda (43%) e apoio no cuidado com os filhos (37%).
Quanto às políticas públicas mais urgentes para mulheres, as respostas mais frequentes foram: programas de inserção no mercado de trabalho (62%), campanhas de educação contra o machismo (44%), delegacias e serviços com atendimento 24h (43%) e o cuidado com a saúde da mulher (39%).
Sobre o sentido mais amplo do levantamento, as declarações do Data Favela ressaltam que a pesquisa visa reconhecer vivências e construir dados a partir das prioridades de quem mora na favela. “O Data Favela acredita que mapear pensamentos, experiências e vivências de moradores de favela é, antes de tudo, um ato de reconhecimento e reparação. Favela não é só ‘problema’ ou ‘estatística’. É também espaço onde existe inteligência coletiva, cultura, empreendedorismo, inovação, verdadeiras estratégias para prosperar”, analisa a copresidente do Data Favela Cléo Santana.
“Ouvir quem vive a favela todos os dias muda o centro da narrativa: não se trata apenas de ‘falar sobre’, mas de construir dados com as pessoas, a partir do que elas consideram urgente, possível e necessário. Isso tem impacto direto na forma como políticas públicas são desenhadas, como empresas se relacionam com esses públicos e como a imprensa retrata as periferias”, complementa a copresidente.







